Entenda o Split Payment aprovado na Reforma Tributária. Descubra como esse novo sistema transformará o fluxo de caixa das empresas, suas vantagens e como se adaptar.
Split Payment: O Sistema Aprovado na Reforma Tributária que Pode Transformar a Gestão do Caixa das Empresas Brasileiras
A aprovação da Reforma Tributária brasileira, focada na simplificação do sistema de consumo com a criação do Imposto sobre Valor Agregado (IVA Dual), trouxe consigo uma revolução silenciosa, mas profunda, na forma como as empresas lidarão com o próprio caixa: o Split Payment, ou Pagamento Dividido.
Este mecanismo, já consagrado em nações com sistemas de IVA avançados, é a espinha dorsal para garantir a eficácia da cobrança do novo imposto e combater a sonegação. Contudo, ele representa um desafio monumental para a gestão financeira das empresas, exigindo uma reengenharia completa de seus sistemas de pagamento e planejamento de fluxo de caixa.
Neste guia abrangente, feito em linguagem simples, exploramos a fundo o que é o Split Payment, como ele funcionará no Brasil, as vantagens e desvantagens para o empresariado, a experiência internacional e, crucialmente, os riscos e as estratégias de adaptação.
O Que É o Split Payment?
O Split Payment é, em essência, um mecanismo de arrecadação que permite a separação automática do imposto no momento da transação comercial.
No modelo tradicional brasileiro, a empresa vendedora recebe o valor total da venda (produto + impostos) e, posteriormente, tem a responsabilidade de calcular, declarar e repassar o imposto devido ao governo. Esse processo é complexo, manual e, muitas vezes, leva à sonegação ou à inadimplência.
Com o Split Payment, a lógica se inverte:
- O cliente efetua o pagamento pelo produto ou serviço.
- O sistema de pagamento (banco, fintech ou instituição de pagamento) separa o valor do imposto na fonte.
- A parcela do imposto é automaticamente transferida para uma conta do governo (ou para a instituição gestora do IVA, como a Câmara de Compensação).
- O valor líquido da venda (o preço sem o imposto) é repassado imediatamente para a conta da empresa vendedora.
A implementação desse sistema no Brasil será fundamental para a cobrança do novo IVA Dual, composto pela Contribuição sobre Bens e Serviços (CBS), de esfera Federal, e pelo Imposto sobre Bens e Serviços (IBS), de esfera Estadual e Municipal.
Como o Split Payment Funcionará com o Novo IVA Dual
A principal característica da Reforma Tributária é a criação do Imposto sobre Valor Agregado (IVA), que no Brasil será dual, e o Split Payment é a ferramenta de arrecadação desse imposto.
A ideia é que, a partir da regulamentação, todas as transações de bens e serviços sejam intermediadas por um sistema que automaticamente calcule e retenha o valor dos impostos unificados.
- Pagamento na Fonte: O imposto será “cortado” no momento exato em que o dinheiro sai da conta do comprador e entra no circuito financeiro. Isso elimina o risco de a empresa vendedora receber o dinheiro total e, por problemas de caixa ou má-fé, não repassar o imposto ao fisco.
- Fim da Acumulação de Créditos: Ao garantir que o imposto seja recolhido instantaneamente, o sistema simplifica drasticamente a complexa mecânica de “crédito e débito” do IVA. As empresas se preocuparão primariamente com o valor líquido da operação, e o problema da cumulatividade tributária — o famoso “imposto em cascata” — será mitigado na prática.
- Transparência e Rastreabilidade: Cada transação será registrada e auditada em tempo real, fornecendo à Receita Federal e aos Fiscos Estaduais/Municipais uma visibilidade total e instantânea do volume de vendas e da arrecadação.
Vantagens e Desvantagens do Split Payment
O Split Payment é um divisor de águas. Embora traga benefícios claros para o fisco e para a economia, ele impõe desafios práticos para as empresas.
Vantagens para o Brasil e o Mercado
- Combate à Sonegação Fiscal: Esta é a maior vitória. Ao reter o imposto na fonte, a capacidade de empresas utilizarem o valor do imposto para capital de giro e depois declararem falência ou simplesmente não pagarem (inadimplência contumaz) é praticamente eliminada.
- Simplificação Burocrática (a longo prazo): Para a empresa, o fim da responsabilidade de gerir o complexo cálculo de repasse de diversos impostos (PIS, COFINS, ICMS, ISS, IPI) para o fisco é um alívio burocrático, permitindo que contadores e gestores foquem em atividades mais estratégicas.
- Redução de Litígios: A clareza no recolhimento desde a origem deve reduzir significativamente o número de disputas judiciais sobre valores de imposto e créditos tributários.
- Celeridade no Crédito: A empresa compradora terá maior facilidade e rapidez para utilizar o crédito do imposto pago, um benefício crucial do IVA.
Desvantagens e Riscos para as Empresas
- Impacto no Fluxo de Caixa (O Maior Risco): Este é o ponto mais sensível. Hoje, muitas empresas usam o valor do imposto (que fica em caixa até o dia do pagamento) como capital de giro de curto prazo. Com o Split Payment, esse capital some instantaneamente, exigindo uma reestruturação imediata das finanças.
- Custo de Adaptação Tecnológica: A implementação exige investimentos pesados em softwares de gestão (ERPs), sistemas de pagamento, e gateways para garantir a comunicação em tempo real com o sistema de compensação do IVA. Pequenas e médias empresas podem ter dificuldade em arcar com esses custos.
- Complexidade na Transição: O período de transição (que se estenderá por anos) será complexo, pois as empresas terão de operar sob dois regimes tributários simultaneamente (o antigo e o novo), exigindo um domínio contábil duplo.
A Experiência Internacional com o Split Payment
O Split Payment não é uma invenção brasileira. Ele é um mecanismo de compliance testado e aprovado em várias jurisdições que operam com um sistema de Imposto sobre Valor Agregado (IVA).
- Itália: Foi pioneira na Europa, implementando o Split Payment (ou Split Payment IVA) principalmente para transações com a administração pública e, em alguns casos, para transações B2B (negócio a negócio). O objetivo principal foi combater a fraude no IVA.
- Polônia: Implementou um sistema de pagamento dividido obrigatório em 2019, focando em certos setores e transações B2B consideradas de alto risco de evasão fiscal. A experiência polonesa mostrou um aumento notável na arrecadação.
- Austrália: Utiliza um modelo semelhante focado em setores específicos onde há alta incidência de fraude, como a venda de ouro e prata.
A lição dos países que adotaram o Split Payment é clara: a medida é altamente eficaz no combate à fraude e no aumento da arrecadação, mas exige um período de adaptação e uma comunicação transparente com o setor privado para mitigar o choque inicial no fluxo de caixa.
Perspectiva Futura dos Especialistas e o Cenário Econômico
De acordo com a visão da maioria dos economistas e especialistas tributários, o Split Payment é uma medida inevitável e benéfica para a economia brasileira a longo prazo:
- Redução do Custo Brasil: Ao simplificar a cobrança e reduzir a sonegação, o sistema contribui para um ambiente de negócios mais justo e previsível, potencialmente atraindo mais investimentos internacionais, pois o sistema se alinha às práticas globais de IVA.
- Impacto Inflacionário Controlado: Espera-se que, ao longo do tempo, a simplificação e a celeridade dos créditos tributários compensem o choque de fluxo de caixa, estabilizando os preços. No entanto, o período de transição pode gerar ruídos.
- Adaptação Digital é Crítica: A sobrevivência das empresas dependerá de sua capacidade de se digitalizar rapidamente. Não basta ter um software de notas fiscais; será necessário integrar sistemas de gestão financeira com o futuro órgão gestor do IVA para operar em tempo real.
Riscos, Brechas e a Necessidade de Planejamento
A promessa do Split Payment é de eficiência total, mas a realidade da legislação sempre apresenta complexidades.
Riscos para Empresas que Não se Adaptarem
O maior risco é a asfixia financeira. Empresas com margens apertadas e que dependem do capital de giro proporcionado pelos impostos em caixa enfrentarão problemas graves de liquidez.
- Necessidade de Crédito: Muitas terão de recorrer a empréstimos bancários para compensar o capital de giro perdido, aumentando seus custos financeiros.
- Atraso em Pagamentos: A falta de liquidez pode levar a atrasos no pagamento a fornecedores e salários, gerando um efeito cascata negativo na cadeia produtiva.
As “Brechas” e Estratégias de Gestão (Não de Evasão)
É vital distinguir entre “brecha” legal (oportunidades lícitas de planejamento) e evasão fiscal. Como o Split Payment mira a retenção do imposto, o foco da gestão deve mudar da evasão para a otimização do caixa.
- Gestão do Crédito Tributário: A principal “brecha” lícita será garantir que os créditos de impostos sejam compensados o mais rápido possível. As empresas precisarão de softwares que calculem o crédito instantaneamente e o utilizem nas próximas compras ou solicitem o ressarcimento de forma ágil, minimizando o dinheiro parado nas mãos do governo.
- Planejamento de Capital de Giro: A única forma de não onerar o caixa é aprimorar o planejamento. Isso significa negociar prazos de pagamento maiores com fornecedores e prazos de recebimento menores com clientes.
Exemplo Prático: A Cobrança do Imposto com o Split Payment
Vamos imaginar uma loja de eletrônicos em São Paulo que vende um fone de ouvido por R$ 1.000,00.
Para este exemplo simplificado, vamos supor que a alíquota total do novo IVA Dual (IBS + CBS) seja de 25% sobre o valor da venda.
1. Cenário Atual (Pré-Split Payment)
No modelo tributário atual (PIS, COFINS, ICMS, etc.), o fluxo de caixa é o seguinte:
| Etapa | Ação | Fluxo de Caixa da Loja |
| Venda | O cliente paga R$ 1.000,00. | A loja recebe R$ 1.000,00 em sua conta. |
| Gestão do Imposto | A loja usa R$ 250,00 (o imposto) como capital de giro por 30 dias. | A loja tem a obrigação de pagar R$ 250,00 ao Fisco no vencimento. |
| Pagamento | 30 dias depois, a loja paga o imposto. | O caixa líquido da loja é de R$ 750,00. |
Risco: Se a loja tiver problemas de caixa no dia do vencimento, ela pode atrasar ou não pagar os R$ 250,00, gerando sonegação ou inadimplência.
2. Cenário Futuro (Com Split Payment)
Com o novo sistema e o Split Payment, o fluxo de caixa muda no momento da transação:
| Etapa | Ação | Fluxo de Caixa da Loja |
| Venda | O cliente paga R$ 1.000,00 via Pix, cartão de crédito ou débito. | O sistema de pagamento (instituição financeira/adquirente) é acionado. |
| Split (Divisão) | O sistema identifica que R$ 250,00 são impostos (25% de R$ 1.000,00). | O valor é automaticamente dividido. |
| Recolhimento | O sistema envia R$ 250,00 diretamente para a conta do novo órgão gestor do IVA. | A loja nunca recebe os R$ 250,00 em seu caixa. |
| Repasse Final | O sistema envia o valor restante (líquido) para a conta da loja. | A loja recebe R$ 750,00. |
O Resultado Prático da Mudança
O principal impacto do Split Payment é o seguinte:
- Imposto Zero em Caixa: A loja não tem mais a posse dos R$ 250,00 referentes ao imposto, nem por um dia. O dinheiro do imposto é do governo, e o sistema garante que ele vá direto para lá.
- O Fim do Capital de Giro Indevido: As empresas perdem a fonte de capital de giro de curto prazo que era gerada pela espera do recolhimento do imposto. A loja tem que planejar seu caixa contando apenas com os R$ 750,00 líquidos.
- Transparência Instantânea: O Fisco tem visibilidade imediata dos R$ 250,00 recolhidos, simplificando a fiscalização e a cobrança do IVA Dual.
Em resumo, o Split Payment transforma o papel da empresa de “coletora do imposto” para “operadora do imposto”. Ela vende o produto, mas o sistema financeiro, em conjunto com o novo sistema tributário, se encarrega da arrecadação automaticamente.
Links Úteis
- Para acompanhar as atualizações e a tramitação da Lei Complementar da Reforma Tributária.
- Para saber mais sobre novos impostos e a reforma tributária no Brasil.
Conclusão
O Split Payment não é apenas uma mudança de regra; é uma transformação radical na disciplina financeira das empresas brasileiras. Ele representa um salto em termos de compliance e arrecadação, tornando o sistema tributário do consumo mais eficiente e moderno, alinhado com as melhores práticas internacionais.
No entanto, o sucesso dessa transição dependerá da antecipação. O tempo em que o imposto podia ser usado como capital de giro está chegando ao fim. As empresas que sobreviverão e prosperarão na nova era tributária serão aquelas que investirem em tecnologia, planejamento de fluxo de caixa rigoroso e na consultoria de profissionais especializados para navegar a fase de transição com segurança.
O futuro tributário é digital e imediato.
ATENÇÃO: Este artigo tem caráter estritamente informativo e educacional, baseado em análises da proposta da Reforma Tributária (PEC 45/2019 e suas emendas). A implementação final do Split Payment depende de Lei Complementar e regulamentações futuras. É crucial que as empresas busquem a orientação de um profissional especializado em direito tributário e contabilidade para avaliar o impacto exato do novo sistema em suas operações e fluxo de caixa.

